Um dia, indo ao Cinema em Ipanema, deparo-me com algo que eu não havia ainda notado e refletido neste lugar. Me refiro as galerias de arte, espalhadas por algumas ruas, que começam mais ou menos na Praça General Osório e terminam na bizarrice do templo do consumo de luxo carioca, que não é a Daslu (para infelicidade ou não dos mais burgueses), mas sim a Garcia D’Ávila. Por mais capitalista que esse mundo possa ser, algumas coisas assustam de forma impactante. Pra mim, a Garcia D’àvila é o início do caminho que desboca no Fashion Mall, com todas as implicações filosóficas que essa assertiva possa ter. Entretanto, por hora, este não vem ao caso. O importante neste post são as galerias de arte.

"Mimimi, eu só compro roupa de marca na Garcia D'ávila"
Minha primeira impressão foi a de que a vida cultural da cidade anda agitada no que diz respeito a artes plásticas, mais até do que eu imaginava (afinal de contas, Museu/Cinema/Teatro de fato, só existem/funcionam em sua maioria na parte Sul do mapa carioca, e o poder público continua nem aí para as outras regiões). Esculturas, montagens, um vasto sem fim de objetos feito por quem entende do assunto. Entretanto o vislumbre e o encanto passam rapidamente após ver a etiqueta de preço em um desses ‘estabelecimentos’. O famoso pedaço de papel ‘adesivado’ que determina, entre outras coisas, quem pode obter algo e quem pode entrar naquele recinto. Assim, a reflexão crítica precisava ser feita, porém ainda me faltava elementos para tal, sabendo que poderia ser argumentado coisas do tipo “galerias de arte são assim mesmo”, “sempre foram assim, para gente que tem poder aquisitivo”, “você só ta reclamando porque você é fudido não abastado e não tem grana pra comprar”, “mimimi que coisa velha e antiquada”. Pra evitar comentários assim, fui estudar um pouco mais a fundo a questão e decidi aumentar o escopo da categoria Artes, pra além do ponto inicial que são as galerias.
Porém, antes de continuar com o debate, preciso colocar uma explicação, mais ou menos teórica: objetivação (grosso modo) é tudo aquilo que é criado externo ao ser, isto é, existe independente do que o ser acredite ou não. Um quadro, uma música, uma mesa, são exemplos claros de objetivação, assim como o é o trabalho, e outras atividades, não só objetos. Subjetivação é o oposto, isto é, tudo que diz respeito ao ser no campo individual; sentimentos, percepções, idéias, estão neste campo. Dito isto, podemos passar para a explicação principal.

Pra saber mais sobre a relação Objetivação/Subjetivação você precisa ler Georg Lukács!!!
Para o pouco que se construiu de estética no campo Marxista, a arte é um processo, advindo da necessidade de objetivação dos homens. A humanidade se objetiva, de várias formas e ponto. Trabalha, constrói coisas, destrói outras, pinta, lê, escreve etc. Mas como se dá o processo de criação artística? Para os Marxistas, os seres humanos, a partir das objetivações de outrem, formam sua subjetividade e, a partir dela, também dão origem a outras objetivações. Todo produto artístico-cultural (música, artes plásticas, poesia, literatura, blog, etc.) é resultado dos processos de depuração no subjetivo do indivíduo, ou seja, se dá dentro do ser de cada um, mas depende do que o cidadão absorveu anteriormente, seja em outras manifestações artísticas, seja andando na rua e observando populações carentes/pedintes, por exemplo. A todo o momento, o subjetivo é afetado por tudo ao seu redor, numa espécie de “você produz o que você consumiu”, mas não com a linearidade que essas palavras teimam em colocar. A idéia principal é que a reflexão do entorno, da subjetivação das objetivações alheias, que dá início, direta ou indiretamente, da criação artística, mesmo que a objetivação em questão tenha intenções políticas/sociais bem definidas ou não. O corolário disto é que a arte emerge como fenômeno social, e não mais como genialidades isoladas, independentes. Não existe o artista isolado, enclausurado, que tem o dom e a idéia e que, em forma de insight, surge espontaneamente do nada. Sem vida social a arte se faz impossível, assim como outras objetivações.

Enclausurado que inventou o Sr. Coco para poder fazer "arte"
Esse resumo de estética, que parece linear demais, esconde a complexidade da dialética (que ficará para outro post, mais bem trabalhado). O que interessa, agora é extrair a maior conseqüência da estética, qual seja a de que a arte é reflexo da sociedade e do tempo em que vivemos. Já que dependemos das objetivações alheias para a construção da subjetividade para a feitura posterior de outras objetivações, temos, ora mais latente, ora menos latente a confirmação dessa afirmação. As atuais galerias de arte são o exemplo da obviedade desta constatação: por não entenderem que o produto artístico depende da alimentação por outras objetivações e que a arte é um fenômeno social, passam longe a critica objetiva e se tornam, apenas, mercadorias do modo de produção capitalismo; com preços altos e bem definidos, em sua maioria são vendidas como objeto de decoração para ambientes luxuosos, simplesmente perdendo o seu caráter e seu valor cultural, (social e político também) empobrecendo as gerações e subjetividades futuras, que cada vez mais se tornam superficiais e esdrúxulas, e sem a menor espécie de compromisso com a própria conceituação das formas, perdendo o sentido até da própria estética. Contudo, essa arte transformaada em mercadoria, só é possível de ser entendida/concebida num mundo em que cada vez mais as formas do fenômeno explicam o próprio e que o individuo (artista) é alçado como o gênio, ou como celebridade.
O raciocínio serve pra outras objetivações culturais. Com calma e paciência é possível visualizar a dimensão ruim do artista que faz arte querendo que seja fora do contexto social. Meus amigos, a vocês uma boa dica: Isso é impossível!
A Barbárie continua… Pelo menos enquanto o socialismo não vem.
Comentem para o debate começar de fato.

4 comentários
Feed de comentários deste artigo
abril 16, 2010 às 7:27 am
JuniorMatos
Gostaria de te convidar para partipar de uma rede de conteúdo, caso tenha interesse me adiciona no msn smatosjr@gmail.com ou me manda um email. Abs, Matos.
setembro 15, 2010 às 8:30 pm
Thaiane
Olá, gostaria de usar esse artigo na minha Monografia, mas para isso preciso do nome do autor…Alguém poderia me ajudar????Um abraço.
novembro 28, 2011 às 3:53 pm
Rodrigo Lima
o Autor é Rodrigo Fernandes de Lima.
novembro 9, 2011 às 7:46 am
asdasd
otimo post.